Make your own free website on Tripod.com

Nossa Gente


População

 

Em 1996 a população do Brasil alcançou 156,3 milhões de habitantes, ocupando quinto lugar em nível mundial, após a China, Índia, Estados Unidos e Indonésia. A população brasileira é predominantemente jovem, tendo 60% dos habitantes idade inferior a 29 anos.

 

População e sua taxa de crescimento anual

Ano

População / (milhões)

Taxa anual de crescimento (%)

1776

1,9

1,8

1876

10,9

1,9

1900

17,3

2,2

1940

41,2

2,3

1950

51,9

3,1

1960

70,1

2,9

1970

93,2

2,7

1980

121,3

1,7

1992

149,8

1,8

1996

156,3

1,1

 

Raças

 

A população brasileira origina-se de três tipos raciais básicos. Aos habitantes nativos (índios), somaram-se os europeus (principalmente portugueses) e africanos (a maioria originária da costa ocidental ao sul do Saara).

No século XVI a superfície atualmente ocupada pelo Brasil era habitada por várias centenas de tribos indígenas que, apesar de serem racialmente semelhantes, falavam diferentes idiomas e tinham culturas distintas. Os grupos que falavam tupi e guarani viviam ao longo da costa e nas terras adjacentes do interior. Em muitos casos, casaram-se com os habitantes portugueses. Por outro lado, muitas tribos que falavam outros idiomas (gê, arwak e karib) viviam no interior e levaram mais tempo para estabelecer contato com os "intrusos". Atualmente, há cerca de 250.000 índios no Brasil. Estão divididos em aproximadamente 200 grupos e falam 180 idiomas diferentes. Os índios vivem em extensas regiões a eles destinadas pelo governo federal (850.000 km2), que equivalem a 10% da superfície do Brasil. Nessas regiões, cuja superfície corresponde a mais de três vezes à do Reino Unido, os índios têm liberdade para preservar o seu estilo de vida.

A partir de meados do século XVI, africanos pertencentes aos grupos étnicos bantu e sudanês - grande percentagem do grupo sudanês chegou da nação yoruba, onde se encontra atualmente a Nigéria e o Benin - foram levados ao Brasil para trabalhar como escravos na produção de cana-de-açúcar e, mais tarde, nas minas de ouro e diamantes e nas plantações de café. O processo de integração, iniciado entre europeus e índios, estendeu-se rapidamente, incluindo também os escravos negros.

Essa mistura de raças teve continuação, uma vez que no final do século XIX o Brasil começou a receber número crescente de imigrantes de todas as partes do mundo. Portugal seguiu sendo a fonte imigratória mais importante, seguido pela Itália e o Líbano. Na primeira metade do século XX, em conseqüência da guerra e de pressões econômicas, grandes contingentes de imigrantes chegaram ao Brasil oriundos de diferentes regiões da Europa ocidental, central e oriental. Em 1908, chegaram 640 imigrantes procedentes do Japão. Devido à acolhida proporcionada pelo meio social brasileiro, a migração japonesa se expandiu. Até 1969, um total de 247.312 japoneses haviam emigrado para o Brasil. Atualmente, o Brasil abriga a comunidade japonesa mais numerosa fora do Japão.

 

Distribuição da população e habitantes por km2(01)

Região

1970

1980

1994

 

População

(milhões)

Densidade

por km2

População

(milhões)

Densidade

por km2

População

(milhões)

Densidade

por km2

Norte

3,6

0,9

6,0

1,7

11,1

2,9

Nordeste

28,1

18,1

35,5

22,9

44,4

28,5

Sudeste

39,9

43,1

52,7

57,0

65,5

70,2

Sul

16,5

28,7

19,4

33,6

22,9

39,8

Centro-Oeste

5,1

3,2

7,7

4,1

9,8

6,1

Brasil

93,2

10,9

121,3

14,3

153,7

18,1

 

 

O povo brasileiro

Darcy Ribeiro(02)

A sociedade e a cultura brasileiras são conformadas como variantes da versão lusitana da tradução civilizatória européia ocidental, diferenciadas por coloridos herdados dos índios americanos e dos negros africanos. O Brasil emerge, assim, como um renovo mutante, remarcado de características próprias, mas atado genesicamente à matriz portuguesa, cujas potencialidades insuspeitadas de ser e de crescer só aqui se realizariam plenamente.

A confluência de tantas e tão variadas matrizes formadoras poderia ter resultado numa sociedade multiétnica, dilacerada pela oposição de componentes diferenciados e imiscíveis. Ocorreu justamente o contrário, uma vez que, apesar de sobreviverem na fisionomia somática e no espírito dos brasileiros os signos de sua múltipla ancestralidade, não se diferenciaram em antagônicas minorias raciais, culturais ou regionais, vinculadas a lealdades étnicas próprias e disputantes de autonomia frente à nação.

As únicas exceções são algumas microetnias tribais que sobreviveram como ilhas, cercadas pela população brasileira. Ou que, vivendo para além das fronteiras da civilização, conservam sua identidade étnica. São tão pequenas, porém, que qualquer que seja seu destino, já não podem afetar à macroetnia em que estão contidas.

O que tenham os brasileiros de singular em relação aos portugueses decorre das qualidades diferenciadoras oriundas de suas matrizes indígenas e africanas; da proporção particular em que elas se congregaram no Brasil; das condições ambientais que enfrentaram aqui e, ainda, da natureza dos objetivos de produção que as engajou e reuniu.

Essa unidade étnica básica não significa, porém, nenhuma uniformidade, mesmo porque atuaram sobre ela três forças diversificadoras. A ecológica, fazendo surgir paisagens humanas distintas onde as condições de meio ambiente obrigaram a adaptações regionais. A econômica, criando formas diferenciadas de produção, que conduziram a especializações funcionais e aos seus correspondentes gêneros de vida. E, por último, a imigração, que introduziu, nesse magma, novos contingentes humanos, principalmente europeus, árabes e japoneses. Mas já o encontrando formado e capaz de absorvê-los e abrasileirá-los, apenas estrangeirou alguns brasileiros ao gerar diferenciações nas áreas ou nos estratos sociais onde os imigrantes mais se concentraram.

Por essas vias se plasmaram historicamente diversos modos rústicos de ser dos brasileiros, que permitem distingui-los, hoje, como sertanejos do Nordeste, caboclos da Amazônia, crioulos do litoral, caipiras do Sudeste e Centro do país, gaúchos das campanhas sulinas, além de ítalo-brasileiros, teuto-brasileiros, nipo-brasileiros etc. Todos eles muito mais marcados pelo que têm de comum como brasileiros, do que pelas diferenças devidas a adaptações regionais ou funcionais, ou de miscigenação e aculturação que emprestam fisionomia própria a uma ou outra parcela da população.

 

Habitantes nas áreas metropolitanas

 Cidade

1970

1994

 

(milhões)

(milhões)

São Paulo

5,9

9,9

Rio de Janeiro

4,3

5,6

Salvador

1,0

2,2

Belo Horizonte

1,2

2,1

Fortaleza

0,8

1,9

Brasília

0,5

1,7

Curitiba

0,6

1,4

Recife

1,1

1,3

Porto Alegre

0,9

1,3

Belém

0,6

1,2

 

A transição demográfica brasileira

Simon Schwartzman

 

Os resultados do cálculo da população realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística em 1996 confirmaram que o Brasil está chegando aos 160 milhões de habitantes e deverá continuar crescendo ainda por vários anos; mas demonstram também que o país está passando por uma profunda transição demográfica, deixando a condição de país predominantemente rural, de população jovem e constante crescimento, para passar à de um país urbano, com uma população cada vez mais velha, aproximando-se rapidamente dos padrões reprodutivos dos países europeus. Mais de 70% da população vive hoje em áreas urbanas; a taxa de fertilidade, ou seja, o número de filhos que as mulheres têm ao longo de suas vidas, caiu de 4,01 em 1980 para aproximadamente 2,2 em 1996, e continua caindo. A população não diminuiu mais porque ainda é muito jovem e a expectativa de vida está crescendo, passando de 61,7 anos em 1980 para aproximadamente 67 anos atualmente.

Outra característica importante dessa transição refere-se à redução ao desaparecimento dos grandes fluxos de imigração, que levavam as pessoas das zonas rurais para as zonas urbanas, e da região Nordeste para a região Centro-Sul. O estado de São Paulo, com a maior população do Brasil, que chegou a crescer a taxas anuais superiores a 3% na década de 80, hoje cresce a 1,5%, sobretudo nas regiões do interior. A cidade de São Paulo ainda cresce em alguns subúrbios, mas o núcleo urbano está estabilizado em cerca de 10 milhões de habitantes. O mesmo vale para a cidade do Rio de Janeiro, estabilizada em 5,5 milhões de habitantes, e Belo Horizonte, com cerca de 2 milhões. A década de 80 presenciou ainda alguns fluxos migratórios importantes para as regiões de fronteira do Centro-Oeste e Norte, mas esses fluxos também perderam intensidade e começam a aparecer indicadores de movimentos de retorno de populações migrantes a seus núcleos de origem.

A redução das taxas de crescimento da população explica-se principalmente pelo crescimento do número de mulheres que ingressam no mercado de trabalho nos últimos anos, com aumento também de seu nível de escolaridade e a adoção de estilos de vida urbanos, com base em famílias pequenas e casamentos tardios. A redução dos fluxos migratórios está relacionada, sem dúvida, ao esgotamento da capacidade de absorção de novos habitantes, pelas grandes cidades, e também ao esvaziamento progressivo das regiões mais empobrecidas, de onde se originava essa imigração.

Tais mudanças trazem duas conseqüências positivas a longo prazo: a redução da pressão demográfica sobre o mercado de trabalho, as estruturas urbanas e os serviços públicos e a redução da importância da questão agrária no conjunto de problemas que afetam a sociedade brasileira. As grandes cidades continuam com grandes problemas de incorporação econômica e serviços públicos adequados para grande parte de suas populações, mas já se começa a vislumbrar a possibilidade de solucioná-los. Os dados sobre o acesso das crianças à escola e o acesso aos serviços públicos básicos essenciais, como água potável e eletricidade, demonstram que o Brasil já está alcançando uma cobertura próxima a 100% nesses itens, nas regiões urbanas. Continuam existindo os problemas e conflitos no campo, principalmente nas áreas em que as atividades agrícolas tradicionais são substituídas por empresas agroindustriais de grande porte, mas atingem contingentes relativamente reduzidos de pessoas.

A consolidação do novo perfil demográfico da população brasileira ocorre ao mesmo tempo em que a economia do país sofre transformações profundas. Na década de 80 a economia praticamente se estagnou, num contexto de inflação acelerada, o que levou a um aumento da desigualdade social e ao agravamento das condições de vida das populações, devido às dificuldades em conseguir emprego, à deterioração dos serviços públicos e às perdas salariais. Na década de 90 a economia brasileira começa a se transformar, no sentido de propiciar maior abertura ao mercado internacional; e a partir de 1994, o governo consegue colocar a moeda sob controle. Desde 1993, o produto interno bruto vem crescendo de forma consistente, mas a níveis ainda baixos, de 2% a 4% ao ano, acima da taxa de crescimento da população, mas abaixo dos índices históricos anteriores à década de 80.

A estabilização da moeda teve impacto imediato e significativo no nível de renda da população assalariada, que se traduziu em grande aumento da demanda por produtos alimentícios e bens de consumo não perecíveis. A abertura da economia ao mercado internacional fez com que os preços internos se mantivessem reduzidos por longo tempo, e o fim da inflação permitiu que os setores mais pobres tivessesm novamente acesso a financiamentos para a compra de bens. Esse aumento da renda e da demanda não foi maior em virtude das políticas de contenção do governo federal, preocupado em manter a balança de pagamentos em equilíbrio e em evitar o recrudescimento da inflação, que tem sido mantida em nível inferior a 10% ao ano (enquanto em 1993 havia chegado a aproximadamente 60% ao mês).

Outras transformações tiveram conseqüências mais problemáticas. As empresas brasileiras que se mantinham em atividade graças à política protecionista vigente até os anos 80 encontraram-se subitamente expostas à competição internacional. Nesses casos, ou não sobreviveram ou passaram por um intenso processo de reestruturação, introduzindo novas tecnologias, aumentando a eficiência e reduzindo a mão-de-obra. Essas transformações, que afetaram principalmente a indústria, não aconteceram somente devido à abertura da economia brasileira, mas também como conseqüência de uma tendência universal no sentido da redução do tamanho das empresas, que é compensado, pelo menos em parte, pela criação de grande número de pequenas firmas especializadas em serviços específicos e trabalhadores temporários e ocasionais.

Estudo recente do Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (IPEA) demonstra que, desde o início de 1991 até o final de 1996, o número de postos de trabalho disponíveis no setor industrial brasileiro havia reduzido em 25%, enquanto a produtividade havia aumentado em 60% no mesmo período. As taxas de desemprego aberto (ou seja, pessoas desempregadas, sem remunerações por trabalho e ativamente à procura de novas colocações) se mantiveram, no entanto, em níveis relativamente baixos nesses período, entre 4% e 6%. A explicação para este contraste está no aumento da precariedade do trabalho, ou seja, pessoas que perderam empregos estáveis e legalmente registrados e passaram a trabalhar por conta própria ou em atividades não registradas. A proporção de pessoas economicamente ativas que se encontravam nessa situação passou de 42% a 50% do total, entre 1991 e 1996.

Outra transformação que acompanhou esse processo de transição foi a redução da capacidade do Estado brasileiro para continuar atendendo às expectativas crescentes da população por serviços e benefícios sociais, grande parte deles instituídos na Constituição de 1988. Essa redução se explica, em parte, pela desorganização das contas e da própria administração pública, ocorridas ao longo da década de 80 e, em parte, pelo aumento das demandas na área da previdência social e dos serviços de saúde, causado pelo envelhecimento progressivo da população. Existe uma noção clara hoje, de que o welfare state criado no Brasil nas décadas anteriores, somente beneficiava uma pequena parcela da população, e de que uma política social mais igualitária e compatível com a necessidade de manter as contas públicas em equilíbrio requer a eliminação de situações privilegiadas, o que provoca, naturalmente, reações e resistências.

A estabilidade da moeda, o fim da explosão demográfica, a estabilidade dos fluxos migratórios, a abertura da economia ao mercado internacional, a racionalização progressiva da ação do Estado, a melhoria gradual de alguns indicadores sociais básicos como educação, saúde e acesso aos serviços públicos essenciais, tudo isso demonstra que o Brasil tem condições de retomar, de forma estável, o caminho do desenvolvimento e da justiça social. Não será um caminho fácil, mas é, sem dúvida, um caminho possível.

-----------------------------------------

01 - Em termos administrativos e estatísticos, o Brasil se divide em cinco regiões, de acordo com as características claramente semelhantes que apresentam, e cujos perímetros acompanham os limites dos Estados que as compõem.

02 - Texto extraído do livro "O Povo Brasileiro", Cia das Letras, São Paulo, 1995.